não faz primavera”
Ao voltar de uma caminhada matinal pelo bosque, adentro a minha casa e me deparo com meu pai, a regar, corriqueiro, as plantinhas que cultivávamos no corredor. Ele carregava consigo, para tal, um baldão d’água, o qual tentava não chacoalhar muito...
__Mas já são onze horas pai, não deveria regá-las nesse horário!
__Por que não? O que tem de mais?
Já lhe havia explicado isso antes, mas, como sempre, ele fingia não se lembrar...
__Tem é que o sol já está a pino, meu velho, assim vai dar um choque térmico nestas plantas! Pode até as matar... O certo mesmo é regar nos crepúsculos, da manhã e da noite, quando o clima é ameno.
__Acha! Porquê? Isso não faz sentido! E se caísse uma chuva aqui agora? Se fosse assim também as mataria! O que eu saiba não ocorra...
Parei e lhe fiz aquela minha cara de desconsolo...
__Mas que cabeça grossa a tua, hein meu velho!? Acaso estais aí a comparar o teu balde d’água à perfeição na qual se dá uma chuva? Ora, os pensamentos não nos devem ser assim tão curtos... Nada se compara à perfeição maestral com a qual a natureza executa uma chuva! Este teu balde d’água, acredite, jamais poderá fazer o que uma chuva faz! Se chovesse aqui agora, como estais aí a dizer, o caso nos seria bem outro... Pois que os céus, quando põe-se a verter água sobre a terra, em sua perfeição, o faz sob a forma de negras nuvens, as quais, no momento da chuva, pairam no ar, a cobrir o sol sobre a terra regada... E há ainda outros diversos fatores, provenientes do fenômeno, que, a agirem em conjunto harmônico, formam ali o que se chamaria de “clima ideal”. Assim, quando a planta recebe o seu “elixir de vida” advindo da chuva, toda a atmosfera circundante lhe é favorável para que ela possa sorver o mineral sem que a temperatura deste a agrida! E é por isso que elas não morrem com a chuva... Agora, muito diferente é, nesse calorão, jogar-lhes uma baldada d’água, entende? O senhor pode as matar assim... Pois que plantas são seres sensiveis, meu velho... O que estais aí a fazer, em pura displicência, é como dar um soco na boca das plantas! Pensa nisso...
Ele para... Aos poucos vejo surgir em seus olhos um brilho vago, não sei dizer, talvez fosse constrangimento, ou talvez se sentisse um pouco emburricado com a estória, não sei. Mas jamais admitiria que eu estivesse certo. Não se rebaixaria. Logo então começou, num sorrisinho crescente e num arzinho cômico, a debochar-se interiormente.
Por fim soltou aquela sua gargalhada irônica, chacoalhando o balde, a derramar um pouco d’água pelo chão...
__Ah! Cê num sabe de nada, rapaz, eu rego elas assim mesmo, sempre reguei. Cê num tem nada pra fazê agora não? Vai arrumá direito aquele quarto lá, vai!
Ao que só pude, em silencio e desencanto, sair andando...
Schuuaaaá...!


